A Bactéria do Pânico

10620732_10204433983030826_8753499630314039828_nNa passada sexta-feira a caminho de casa, telefona-me uma pessoa amiga. “Zé, toma cuidado que contaram-me que a água aqui da zona está contaminada. Vê se queres passar por algum sítio para comprar água.” Eram 18h30 e, para mim, foi o início de um fim de semana diferente e um pouco triste.

Durante a hora e meia seguinte, assisti ao que podia ser o início de uma pandemia, pelo menos todos os sinais indicavam para isso. Todas as pessoas que via na rua traziam consigo um garrafão de água. Ao entrar no prédio vejo um vizinho com um garrafão de água e aproveito a oportunidade para fazer conversa. “Então, parece que se passa alguma coisa com a água aqui da zona?” Um pouco evasivo, mas lá me confirmou com um “parece que sim”. Se algo já me soava a esquisito na história desde o início, então agora era mais flagrante. Perguntei onde tinha ouvido essa informação e ele disse-me literalmente “diz-se por aí”.

Aprendi, ao longo da minha vida, a confiar cada vez mais no meu instinto. E o meu instinto dizia-me “isto não me soa bem, a história não está bem contada”. Com a agravante de que ninguém me conseguia dar a origem da informação, então eu sabia de uma coisa. Eu tenho de confirmar o que me estão a dizer. Para alguém que encontro na rua o “diz que disse” é suficiente. Mas eu precisava de alguém que oficialmente pudesse confirmar alguma coisa do que se estava a passar.
Acima de tudo, eu sabia que alguma coisa se estava a passar. As pessoas que me estavam a dar a informação, considerava-as consideravelmente racionais, por isso alguma coisa passava-se de certeza.

O professor de um amigo meu costumava dizer nas aulas “Nunca confies em algo só porque está escrito em letra de imprensa”.

Telefonei para o SMAS, mas já ninguém me atendeu. Liguei para a polícia e o que me souberam dizer é que tinham várias pessoas a perguntar o mesmo mas não tinham nenhuma confirmação de nada.

Fui com o meu filho comprar um garrafão de água e pelo caminho telefona-me outro amigo. “Zé, não uses a água da torneira para nada!”. Disse que já estava a caminho de comprar água e que ia comprar para ele, se ele assim precisasse. Mais uma vez, pouca informação e sem fonte concreta de informação. Ao falar com ele, apercebi-me que as pessoas daquela zona (é muita gente), tinham ido a todos os supermercados e esgotaram literalmente a água engarrafada.
Esperei pelas 20h, já me tinham dito que ia “passar no telejornal”. Foi apenas no telejornal que comecei a perceber melhor o que se estava a passar. A notícia, de entrada no telejornal, indicava o seguinte. Estavam várias pessoas das freguesias do Forte da Casa, da Póvoa de Santa Iria e da Bobadela internadas com a bactéria da Legionella. Estava a iniciar-se um surto de Legionella.

Ouvi o resto da reportagem e, porque para mim o conhecimento impera sobre todas as coisas, fui de imediato à procura de mais informação sobre a tal “Legionella”. A Wikipedia não é a melhor fonte de informação, é tendenciosa e depende em parte das pessoas que a alimentam de informação. Mas isto era diferente. Eu estava à procura de algo de uma ciência exacta. Lá encontrei a seguinte informação. É uma bactéria e contrai-se pelas vias respiratórias. Morre abaixo dos 20ºC e acima dos 70ºC, por isso nem era preciso ferver a água. Lá, diz também algumas fontes de contágio, se bem que aqui entramos num terreno um pouco vago. Torres de refrigeração, sistemas de ar condicionado centralizado, e mais alguns que considerei menos propensos a um país supostamente civilizado como o nosso.
Ok. Então, podemos consumir a água, cozinhar já não era um problema, mas ainda não era claro para mim a fonte de contaminação.

Já não me lembrava de uma altura em que tenha visto tanto telejornal, mas íamos entrar num período de dois dias muito complicados para notícias. O fim de semana. Nos noticiários seguintes, era mais do mesmo. Legionella, água, internados, e não se sabe a origem. E o factor “fim-de-semana” iria agravar este efeito. Tendo consciência de que uma investigação deste foro é complicada, percebi nesse mesmo momento que não se iria saber nada até ao início de semana seguinte.

A informação nova aparece pouco a pouco. Um dos dirigentes da Direcção Geral de Saúde foi entrevistado e aí surgem as informações de que podíamos beber água e ter cuidado com as “vaporizações” de água. Foi nessa altura que se começou a falar dos duches e das torneiras a alta pressão. Mais uma vez, ninguém sabe a origem, mas há a indicação que se está a trabalhar para saber a causa. O número de casos vai aumentando pouco a pouco. Surge a primeira vítima mortal.

Tentei ao máximo filtrar a informação à minha volta, mas não é fácil. Por um lado, temos de estar informados, por outro quando mais ouvimos mais do mesmo, mais as especulações se tornam verdade.
Pior é o caso em que é um meio muito concentrado (a maioria é de 3 freguesias apenas, muito pequenas em dimensão mas com uma densidade populacional muito grande). As pessoas conhecem-se e agrava o efeito “populus panicum”.

Durante estes 3 dias, fomos assistindo a um aumento significativo dos casos de infecção com a Legionella. Já ultrapassamos apenas nestes 3 dias os casos totais de infectados do último ano. A informação nova que vai chegando é pouca de cada vez e à medida que os dias passam, repete-se mais a informação mais antiga. Isto torna a leitura das notícias aborrecida e a entrar no domínio da especulação. Quando mais vezes se repete uma informação especulativa, mais ela se torna verdade.

Logo no início, isto se tornou evidente. As pessoas correram ao supermercado abastecer-se água sem reflectir, sem ponderar sobre o que se estava a passar e sobre as medidas que estavam a tomar. Logo nesse dia apercebi-me das características da bactéria e fiquei a saber que a água engarrafada não iria resolver o problema (pois bastaria “ferver” a água, mas também sabia que a ingestão da água não era suficiente para contrair a doença).
De facto, as pessoas fizeram o pior que podiam fazer. Num surto de uma bactéria que se contrai por vias aéreas, foram a correr a espaços públicos comprar algo que não iria corrigir a fonte de contaminação. Além disso, assumiram logo na altura que para os banhos não haveria problema porque “bastaria ter cuidado para não beber água”.
Poucas coisas estariam tão longe da verdade. O pânico foi amigo da desgraça e levou as pessoas a fazer algo que não as ajuda.

Sei poucas coisas, mas estas considero-as verdades. Não por saber muito ou pouco do assunto, mas porque as fontes “credíveis e científicas” assim o apontam. Procurei informar-me e saber o mesmo tipo de coisas por origens diferentes.
– O número de infectados e mortos é impressionante, para algo que era suposto ter uma frequência muito baixa.
– O número continua a crescer.
– A água é potável.
– Os vapores de água com a bactéria da Legionella podem (nem sempre acontece) contrair a doença.
– Os sintomas são os de uma pneumonia grave.
– A doença é curável (os casos de morte eram pessoas que já tinham condições deficientes respiratórias).
– O periodo de incubação é de 5 a 15 dias (aproximadamente, o que indica que a fonte de contágio pode não ser recente).

De resto, vamos esperar pelos próximos dias. Por mais informações e mais esclarecimentos. Porque enquanto as pessoas não souberem o que se passa, vão continuar em pânico, a alimentar e a ser alimentadas por especulações.

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