O Antibiótico da Bactéria do Pânico

Copo de águaNeste evento epidémico de Legionella em Vila Franca de Xira (na verdade, são referidas as localidades de Forte da Casa, Póvoa de Santa Iria e Vialonga) existe uma parcela do problema muito mais preocupante, apesar de ser mais difícil mensurar, e também que vai trazer danos muito mais profundos do que a bactéria em si. O medo, as preocupações, o pânico provocaram alterações profundas da nossa percepção sobre coisas simples.

Desde o início da propagação viral que se vive verdadeiramente um ambiente de medo e desconfiança nas ruas desta localidade. Evitei ao máximo contacto com outras pessoas, não por causa da Legionella mas para não incorrer numa infecção mais dolorosa. A da sanidade mental.

Todos sabemos, mas ninguém sabe. Sabemos muitos “de onde pode ser”, mas ninguém consegue confirmar de onde é. Mesmo que saibamos de alguma forma de onde é, não sabemos se foi resolvido. E mesmo que isso tudo se resolva, a nuvem da incerteza há de pairar por mais uns tempos.

Pode ser do ar, da água, dos sistemas de rega, do ar condicionado, até de algo que não sabemos. Neste momento, até as hipóteses mais rebuscadas (como a mão humana, por exemplo) passam a ser uma hipótese, mesmo que improváveis. Quando nunca conseguimos obter uma confirmação, tudo pode ser. Todas as hipóteses passam a ser iguais entre si.

Porque nesta altura, tu pões em causa as mais simples tarefas. Abres a torneira e fechas logo a seguir com o reflexo de pensar que está contaminada. Racionalizas, convences-te de que não ha problema e lavas as mãos. Não tiras os olhos da água a pensar se estás a ser realista ou imponderado. Secas as mãos e confirmas de que não ficaste com humidade nenhuma nas mãos. Poisas a toalha e continuas a pensar se estás a exagerar ou se devias ser mais cuidadoso. Tentas esquecer e segues a tua vida. Até que no dia seguinte tens de tomar banho. E se já era complicada a tarefa de simplesmente lavar as mãos, o teu desespero afunda-se em ti quando pensas em tudo o que tens de – ou deves – fazer. E isto, todos os dias.

Surge o momento em que alguém que conheces vai para o hospital. Até pode não ser Legionella e as análises até o comprovam. Mas mesmo depois de uma certeza, é o médico que diz que até pode ser. E pões tudo em causa mais uma vez. Nesse momento já estás a aproximar-te daquilo que estavas a tentar afastar-te desde o início. E é absolutamente inevitável o novo contágio do excesso de informação crua. Se por um lado sabemos que há menos casos novos todos os dias, acabamos de ouvir de alguém em quem confiamos que “não está nada fácil e continuam a aparecer casos novos”.

Esta bactéria também se dá a isso. Tem demasiados “pode ser” e “mas” na descrição. Podemos ser infectados pela água, mas só se a inalarmos. Se formos infectados, adoecemos, mas só em determinadas condições. É perigosa, mas só em pessoas com problemas de imunidade ou respiratórios. Não afecta crianças, mas até afecta em casos muito raros. Pode ser do ar, mas a bactéria tem de estar presente em gotículas de água. Deixa-nos insanos só de pensar de onde pode ser. E, mais uma vez, porque não conseguimos confirmar a causa, tudo pode ser a causa.

Imagina o que sentirias se a tua localidade fosse notícia de abertura de todos os telejornais (antes até das notícias do BES ou da PT), todos os dias. Todos os dias. E que o surto até já ganhou o nome da tua terra, onde tu moras, onde tu vives, onde tu vens descansar todos os dias. É difícil descansar assim.

O que pretendo com este texto, é apenas uma coisa. A bactéria é perigosa, a infecção é perigosa. Mas mais perigoso são os efeitos colaterais da bactéria. Aqueles que tanto se falam mas pouco se valorizam. Aqueles que, mesmo depois de um forte antibiótico, continuam e perduram. A bactéria da Legionella desaparece e os infectados são curados. Mas tu nunca mais voltas a ver as coisas básicas à tua volta da mesma forma.

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