Tudo o que eu sou hoje, já era antes

A partir dos 30 deixamos de fazer aniversários. Agora passa a ser “e mais um” todos os anos. Não é que se sinta o peso da idade. Os “trinta e…” que agora contamos sabem a tão pouco como quando o meu filho conta a lenga-lenga do “um-até-dez”.

Hoje, os meus amigos que teimam em aparecer aqui e acolá no vasto cardápio de apps e messengers, semeiam votos e mensagens. Se calhar por isso é que lhes chamam de Primaveras. Antes ainda da intenção que está ali plantada, está o querer plantar. Está o largar tudo e querer dar mais um nó nos laços que nos unem. E nesse momento a distância passa a ser zero. Passam a estar ali, à minha frente. O passado confunde-se com o futuro e com o presente. E não há mesmo melhor presente que esse.

Ao longo da nossa vida, as nossas memórias vão criando depósito no sumo da nossa vida. Aos poucos, deixam de ser apenas uma suspensão turva e começam a cristalizar, a formar estruturas organizadas e passam a ser mais bonitas. Aparecem cristais bonitos, aqueles que não queremos esquecer. Aparecem também os menos bonitos, mas esses também fazem parte de nós. É tudo nós, o turvo também.

Tudo o que eu sou hoje, já era antes. Não mudei, construí-me. Sinto que agora já tenho o direito de ser poético e mesmo assim ser levado a sério. Acho que é essa a diferença.

 

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